Pesquisadores estudam o “jamais vu”, uma experiência em que palavras, rostos ou lugares familiares passam a parecer estranhos ou sem sentido. O fenômeno é considerado o oposto do déjà vu e ajuda a revelar como o cérebro processa a familiaridade.
Estudo mostra que a sensação pode surgir em situações simples, como escrever uma palavra muitas vezes seguidas. Por alguns instantes, algo conhecido pode parecer novo, desconhecido ou até errado.
Quando uma palavra perde o significado
Imagine escrever seu próprio nome repetidamente em uma folha de papel. Depois de várias tentativas, as letras podem começar a parecer apenas símbolos sem conexão. Essa estranha sensação tem nome: jamais vu, expressão que significa “nunca visto”.
Enquanto o déjà vu faz uma situação nova parecer familiar, o jamais vu provoca o efeito contrário: algo conhecido passa a parecer estranho. Pessoas relatam essa experiência ao olhar para rostos familiares, repetir palavras ou até durante atividades que realizam com frequência.
O neuropsicólogo Akira O’Connor, da Universidade de St Andrews, estudou o fenômeno e relatou ter sentido algo parecido enquanto dirigia, quando precisou parar o carro porque pedais e volante deixaram temporariamente de parecer familiares.
Cientistas descobriram como provocar o efeito
Em 2023, O’Connor e o neuropsicólogo cognitivo Chris Moulin, da Université Grenoble Alpes, receberam um Ig Nobel Prize por desenvolver um experimento capaz de induzir o jamais vu em laboratório.
No estudo, 94 universitários copiaram palavras repetidamente até que elas começassem a parecer estranhas. Cerca de 70% dos participantes interromperam a tarefa, normalmente após um minuto ou aproximadamente 33 repetições.
Os relatos dos voluntários mostram como a experiência pode ser desconcertante:
- Palavras comuns começaram a perder o significado;
- Alguns participantes sentiram que perderam o controle da escrita;
- Termos conhecidos pareciam apenas uma sequência de letras;
- A sensação também apareceu fora do laboratório, durante atividades como provas.
Um participante descreveu a situação assim: “Enquanto escrevo em minhas provas, escrevo uma palavra corretamente como ‘apetite’, mas continuo olhando para ela porque começo a duvidar se está certa.”
O cérebro pode “desligar” temporariamente a familiaridade
A principal explicação para o jamais vu envolve um processo chamado saturação. A ideia é que a exposição intensa e repetida a uma informação pode fazer o cérebro reduzir temporariamente sua resposta, tornando algo familiar menos reconhecível.
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Pesquisas recentes indicam que o fenômeno pode começar antes mesmo da interpretação do significado. Um estudo de 2024 usou um modelo de inteligência artificial inspirado no córtex visual e observou que a repetição de padrões pode afetar a capacidade de classificação visual.
Ainda existem muitas perguntas sobre como a saturação, o efeito de transformação verbal e o jamais vu se relacionam. O fenômeno também aparece em estudos envolvendo epilepsia do lobo temporal e transtorno obsessivo-compulsivo.
No fim, quando seu próprio nome parece estranho por alguns segundos, não significa que ele deixou de fazer sentido. É apenas uma pequena demonstração de como o cérebro humano ainda guarda muitos mistérios para a ciência investigar.
O post Você já achou seu próprio nome estranho? A ciência explica apareceu primeiro em Olhar Digital.
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